Arquitetura e vidaManoel Carlos Pinheiro – 20 de fevereiro de 2004

 

Em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, será construído o Centro Cultural Municipal Oscar Niemeyer. Aos noventa e seis anos de idade, Niemeyer faz por merecer esta e outras homenagens.
Serão dois prédios equipados com ar-condicionado central. O prédio do teatro, com dois pavimentos e o outro, com três pavimentos, que abrigará biblioteca, galeria para exposições, quatro salas oficina, copas e banheiros públicos.
Com espaço para eventos ao ar livre, o Centro Cultural é um projeto arquitetônico do próprio homenageado, nosso maior arquiteto.
Nas
paredes do seu escritório, numa cobertura da Avenida Atlântica em Copacabana, Niemeyer fez alguns traços e escreveu algumas frases, numa delas ele diz que "a arquitetura não é importante, mas a vida".
Sempre que fui ao seu escritório o tema das reuniões era a vida e não a arquitetura.
A
única exceção foi na época que estava sendo construído o Sambódromo do Rio de Janeiro.
Havia uma
intensa campanha de toda a mídia contra o projeto que acabaria o monta-desmonta de arquibancadas.
O interessante é
que o custo do Sambódromo equivaleu a dois anos de monta-desmonta.
Para atender o pedido de Darcy Ribeiro, Niemeyer impôs uma condição: criar, no próprio Sambódromo, um espaço para escolas.
Resultado: mais seis mil vagas em escolas municipais.
A
imprensa, em sua campanha, afirmava que não haveria desfile de escolas de samba porque o Sambódromo não ficaria pronto a tempo; que havia risco de cair.
A TV
Globo recusou-se a transmitir o desfile e propiciou à Manchete elevadíssimos índices de audiência.
Quando a população do Rio ainda estava perplexa, na condição de Secretário Geral do Instituto Cultural Brasil África, cujo Conselho Niemeyer presidia, reuni todos os presidentes de velha-guarda de escolas, entre eles o Seu Walter, da Portela, Carlinhos Vovô, do Império Serrano, Babaú, da Mangueira, Seu Geraldo do Salgueiro.
Ainda alguns notáveis do mundo do samba como Roberto Ananias.
Foi uma
reunião maravilhosa.
Pela animação, parecia um grupo de crianças.
Niemeyer,
como sempre, foi um grande anfitrião: paciente, atencioso e simpático.
Ele mostrou todo o projeto, fez traços em grandes folhas de papel (eu deveria tê-las guardado), acolheu sugestões.
Houve
até quem fizesse um partido-alto elogiando o Sambódromo, ainda sem este apelido definitivo dado por Darcy Ribeiro, e o seu criador.
A
partir de então, o Sambódromo tornou-se irreversível; pouco a pouco, a partir da velha-guarda, a aceitação do projeto foi absoluta.

Publicada
com fotos em
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no
dia 20/02/2004