Helena, 18 anos, meiga, bela, sensível e inteligente. Jóia
rara que a todos encantava. André, 27 anos, simpático,
divertido, sensível, inteligente e gentil. Médico
recém-formado, um partidão.
Estava escrito nas estrelas. Tórrida paixão, sublime amor e todos os rótulos
dignos do casal que, separadamente já despertava a admiração e as atenções
gerais, juntos então, nem se fala. Namoro rápido, casamento aprovado por todos,
inclusive pelas famílias.
Ela ingressou na universidade, estudava arquitetura. Ele dividia-se entre o
consultório próprio e dois empregos em hospitais. Casamento maravilhoso, nos
dois ou três primeiros anos. Depois, o cotidiano, os horários desencontrados, o
corre-corre, o cansaço... Não há amor ou paixão que resista.
Jamais tiveram uma briga ou mesmo discussão. Apenas tudo parecia funcionar no
piloto automático. Relação mecânica, quase impessoal. O tratamento carinhoso
foi, pouco a pouco, sendo substituído pela gentileza educada, fria, quase
formal.
Não havia interesses comuns, embora ambos desenvolvessem atividades similares.
Participavam de congressos, seminários, todos diferentes, em datas e cidades
distintas. Cada qual passou a ter seus próprios amigos e as amizades comuns
ficaram escassas.
Um dia, numa festinha do pessoal da faculdade, um rapaz se aproximou de Helena,
sem esconder o seu interesse. Dançaram, conversaram, nada mais. Nenhuma
infidelidade concreta, mas o suficiente para acender um alarme, o primeiro nos
cinco anos de casada. Descobrira que poderia se interessar por outros homens.
Ela não sabia como iniciar uma conversa com ele. Às próprias amigas mais
íntimas não conseguia explicar o que faltava ao casamento aparentemente
perfeito. Afinal, ainda formavam um casal estimado e admirado por todos. Ele
bem sucedido profissionalmente, ela uma promessa de grande futuro, já bem
encaminhada. Ambos ainda sabiam cativar a todos com quem conviviam.
Passou a ficar tensa e nervosa, contida. Distraída e ausente, fria. E o pior de
tudo: ele nem se deu conta.
Sempre visitava os pais, mas uma noite, sem qualquer motivo especial, dormiu
lá. Aos poucos, sem nada dizer, foi fazendo a mudança. Separando-se sem
qualquer comunicação. Até que não mais voltou. Foi obrigada a dizer aos pais
que se separara. Foi difícil explicar. Claro que não havia outro! E os pais,
pensando ser uma crise passageira, não a pressionaram.
Não conseguia mais se adaptar à vida na casa dos pais. E, sem que ninguém
soubesse, passou a voltar à tarde. Sempre ia buscar algum pertence que lá
deixara. E, já não tendo o que buscar, ia por ir. Aproveitava o ambiente
tranqüilo para ler, estudar e até mesmo dormir. Sempre com o cuidado de sair
antes da hora da volta dele.
Dez meses nesta situação e aconteceu: uma tarde, um pouco mais cansada, Helena
perdeu a hora. Acordou com André acariciando o seu cabelo e perguntando:
"perdeu a hora ou resolveu voltar?".