Rabiscos – Manoel Carlos Pinheiro
O café já meio frio, gosto de velho. Misturado com o
cigarro, um aceso na guimba do outro. Juntos só fazem aumentar a dor de
estômago. Que importa? Pior de tudo é este vazio na cabeça. Se pudesse
espremeria o cérebro e produziria idéias em gotas. E as espalharia sobre o
papel. A cesta está abarrotada deles. Todos amassados. Os seus rabiscos não
merecem mais que estarem em folhas amassadas, picadas e jogadas no lixo.
O silêncio da madrugada ao invés de ajudar na concentração só faz distraí-lo.
Olha em volta e vê o desalinho do quarto parecendo refletir os pensamentos
embaralhados. É tão simples. Tem o tema, a definição das linhas gerais e nada!
Palavras chochas e vazias. Frias quando deveriam exprimir emoção, tensão.
Períodos longos e prolixos. Droga! Merda!
Não dá para entender o que se passa. Outrora (huum!) as idéias fluíam, parecia
até que brotavam espontaneamente do papel. As palavras escritas adquiriam um
ritmo, cuja cadência levava o leitor ao envolvimento total. Era uma surpresa
agradável imaginar um texto e ele surgir do nada.
Diziam que ele brincava com as palavras. Não era verdade. Ao contrário, ele as
amava e, apesar da intimidade com elas, o respeito era o que marcava esta relação.
Uma relação séria, profunda. Na verdade, não com as palavras, com a escrita.
Quando instado a falar, não conseguia verbalizar coisa alguma.
Sempre fora mais para misantropo. Gênio difícil, quase intratável. Puro
mecanismo de defesa. Nem poderia dizer-se tímido. Timidez é uma coisa meio
doce. Amargo, duro e frio com todos. Ele próprio se achava desagradável. Sofria
com o jeito quase grosseiro de lidar com o mundo e as pessoas. Fazia parte da
sua natureza, conformava-se.
Entretanto, sempre foi um observador sagaz e sensível. Talvez pela diferença
entre o seu comportamento e o seu texto, não sabe ao certo, adotou um
pseudônimo. Na primeira vez, por imposição do concurso literário. Depois,
preferiu o pseudônimo ao próprio nome. Preservaria o autor, afastaria os
eventuais admiradores.
Espectador da vida, mas seus escritos... Eram a própria vida! Pareciam produto
e síntese de uma larga experiência, de uma vivência, só ele sabia, inexistente.
A fonte secou. Cansaço, pensou. Fruto da impiedosa cobrança dos editores. A
pressão por artigos e livros. Nada que umas férias e um bom descanso não
resolvessem. Nem queria mais voltar de seu refúgio. As duas semanas programadas
viraram um mês, esticou mais um pouco e mais outro mês.
Os editores, amedrontados, tentaram, com muito tato, chamá-lo de volta à vida.
Poderia até mesmo morar ali, mas escrevendo algo. Se fosse insatisfação
financeira, refariam os contratos. Qualquer coisa, mas o mundo sentia a falta
de seus escritos. Mas ele não. E, como sempre, o que importava eram as suas
necessidades, os seus desejos. Nada o comovia. Até que ele próprio sentiu,
primeiro, a vontade, depois, a necessidade e, a seguir, a compulsão de
escrever.
Comparou-se a alguém submetido a um trabalho de recuperação ortopédica que precisa
reaprender os movimentos mais simples. Demoraria um pouco, mas logo iria
readquirir a capacidade febril de produzir como antes. E não aconteceu.
Nervosismo, angústia, desespero. A vida perdera o único sentido. A sombria
idéia de suicídio, afastada como uma assombração. Voltou com mais freqüência e
intensidade. Rendeu-se. Conformado, parecia lidar com uma fatalidade, um
processo inexorável, cujo trágico desfecho não poderia ser alterado.
Apenas a apatia e a falta de iniciativa impediam o suicídio. O inevitável
suicídio. Sendo inevitável, teve que tratar dos detalhes. Passos errantes,
vazio na cabeça, ardência no estômago. Além de inevitável, o suicídio era
inadiável. Mesmo sem amigos ou entes queridos, sentiu necessidade de se
justificar. Começou a escrever a carta de despedida. Sem mais café ou cigarro.
Só ao amanhecer, contemplando o seu melhor texto, se deu conta de que tudo
voltara ao normal.