O
violinista –
Manoel Carlos Pinheiro
Seco. Frio. Parado. Nenhum brilho, nenhuma lágrima. O
olhar nada revelador. Nada a indicar o nó na garganta, a dor no peito, o
embrulho no estômago. Não havia qualquer surpresa, ao contrário, era morte
anunciada.
De fato, ela continuara gentil, palavras delicadas e sob medida para agradá-lo.
As demonstrações de carinho também permaneceram, mas algo se quebrara. Ele sempre
vasculhava a memória em busca do detalhe indicador do ponto de ruptura, mas não
encontrara o que sentia estar presente. Certamente fora algo que ele próprio
dissera. Evidente o desencanto dela. Não sentia mais os seus arroubos
apaixonados, apenas elogios e referências a tudo que ele representara. Aquele
tom nostálgico foi o que o levou a perceber que ela se distanciara.
Desde o início ele a distinguira na multidão. Ela exercia mais que fascínio,
chegava mesmo a dominar todos os homens que a cercavam, os quais pareciam uns
bobocas ao seu redor, disputando as suas atenções.
Ele chegara de mansinho. Pouco a pouco ela se interessou e teve a iniciativa. E
rapidamente o conquistou. Tomou-o para si e a ele, sem reservas, se entregou.
Parecia ser apenas sexo, puro sexo, muito sexo, sexo, sexo... E era mais que
isto. Havia afinidade, identidade e complementaridade. Realização recíproca.
Seriam felizes para sempre.
A vida madrasta assim não quis. Viviam em mundos e tempos diferentes. O tempo,
inexorável cumpriu o seu papel. Não apagou o fogo da paixão. Não desfez a
cumplicidade da alcova. Mas perdeu sentido o que jamais teve compromisso com o
futuro ou com o cotidiano.
Ela voltara ao mundo, distante dele. Saíra da ilusão, da fantasia e retornara
aos seus livros, aos seus discípulos, ao seu séquito e, principalmente, a um
novo amor.
O gosto amargo na garganta seca inibia o doce sabor da recordação. O seu
violino, peça delicada, sofisticada e rara não mais vibraria ao toque de suas
mãos. Outros solistas certamente o levariam a aplaudir, de pé, o recital que
ele não mais executaria.