O
prisioneiro –
Manoel Carlos Pinheiro
Sentado ao fundo da sala, a todos observa em silêncio. A
discussão profissional mais parece briga de torcidas. Quando o impasse estiver
configurado ele falará. Como sempre, serão poucas palavras, em voz baixa e
pausada. Usará o conhecimento, a experiência e a observação. Se interrompido em
sua manifestação, dará respostas rápidas e desconcertantes. Perde um amigo,
jamais a piada.
Alguns o temem, outros o estimam, todos o respeitam. Metódico e organizado no
trabalho. Mais sério que bode mijando. Ri com os olhos, seu humor é ironia
pura.
Firme e duro, mais parece um lajedo. O distanciamento gentil dá a impressão de
ser frio. Com delicadeza, sempre soube evitar os envolvimentos com as colegas
de trabalho, seguindo o lema: "onde se ganha o pão, não se come a
carne".
E parece praga de madrinha. Cada nova colega demora a percebê-lo, mas quando o
faz, demonstra um interesse nada profissional. Não chega a ser assédio. Às
vezes sente-se tentado. Antes, livre, não tinha tempo a perder.
Mulher pode ser bonita e sensual, dá para resistir. Serve para ver sem tocar.
Mas quando tem senso de humor e sensibilidade, é um perigo. Um olhar
cristalino, água pura. Um sorriso pueril, brisa silvestre. Água e vento. Tudo
que pode corroer um lajedo, tirando-lhe lascas, provocando-lhe rachaduras.
Sempre disse: "casamento é tão ruim que vicia". Um dia achou que
finalmente seria solteiro para sempre. Nada de horários controlados, nada de
companhia fixa, nada de problemas domésticos. Livre para ir e vir, com quem bem
desejar.
Ele a conhecia de ôbas e olás, nada nela lhe chamava a atenção de forma
especial. Não representava qualquer perigo. Descuido fatal. Ao primeiro contato
mais próximo, teve um ímpeto. Bobagem... ladrão não rouba perto de casa. E tudo
voltou à rotina de cumprimentos em encontros esporádicos. Segunda aproximação.
Discussões filosóficas, políticas, piadas, risos... Parecia o sapo enfeitiçado
pela cobra: quanto mais esforço fazia para distanciar-se, mais estava à sua
volta. Estava escrito nas estrelas.
As dificuldades financeiras, familiares, profissionais ou pessoais determinam o
fim dos relacionamentos. Mas nada foi capaz de romper os elos de sua prisão.
Lugar-comum de frases feitas e citações banais. Continua um sapo enfeitiçado
pela cobra.