O
diploma – Manoel Carlos
Pinheiro
Sempre foi muito estudioso. Um aluno especial.
Participante, disciplinado, questionador. Um pouco impaciente, é verdade.
Irritava-se, mais do que gostaria, com a burrice explícita que tomava conta dos
colegas. Mas jamais teve conflitos maiores com quem quer que fosse.
E, pouco a pouco, foi se tornando um estudioso, classificado por todos como
intelectual. Mas gostava das coisas comuns, coisas das quais intelectual não
gosta. Futebol, festas, etc. Fluminense doente. Perto dele, Cartola era
Flamengo, Gérson é Vasco e Chico Buarque é Botafogo.
Virou artista. Sem frescura, mas um tanto esquisito para os padrões dominantes.
Marxista, cercado de místicos por todos os lados. Franco e direto, entre tantos
bajuladores. Comprometido com a aplicação prática de seus princípios, sem
patrulhar os carreiristas de plantão.
Pelo talento e pela disciplina férrea, alcançou sucesso profissional. Mas não
se sentia bem se não estivesse estudando alguma coisa. Não apenas lendo, isto
sempre e muito mais. Cursos extras e regulares. Para cursar filosofia, estudou
grego e alemão. Tinha que ler os filósofos no original.
Três graduações, quatro mestrados e cursando o doutorado. Parecia estudante
profissional. Os amigos sempre reclamaram que ele adorava um diploma. Na
verdade ninguém jamais viu algum pendurado pelas paredes de sua casa. Nem mesmo
os prêmios e troféus conquistados em concursos e exposições. Apenas os incluía
no curriculum-vitae, fazendo-o parecer uma tese.
Sempre graduações e mestrados, mas não doutorados. Eram todos em áreas
diferentes. Complementares, costuma dizer. Doutorado só quando sentir que há um
arcabouço teórico, algo a ser realmente construído e produzido, inovador.
Sofria a cada defesa de tese, mas nunca como na do doutorado. Reescreveu-a
quatro vezes, sempre dizendo: tá uma merda! Mediocridade e confusão! Rasgava
todo o trabalho impresso, deletava os arquivos e reformatava o HD para não
sobrarem vestígios. Na quinta vez, sentiu que encontrara o rumo. Desde o início
falava aos amigos: não posso conversar muito, pois agora a tese sai, a melhor
que já concebi, a minha obra prima. A defesa foi uma apoteose!
Por tudo isto, até os amigos mais gozadores, respeitaram o seu carinho pelo
grau obtido e, até mesmo, pelo famoso "canudo". Só a burocracia,
misturada aos movimentos de greve, não respeitou tanto carinho. Nove meses,
três semanas e cinco dias. Exatamente o tempo entre a requisição e a emissão do
diploma. Pensou em chamar os amigos para receber o diploma, fazer a comemoração
de praxe. E, pela primeira vez, botaria o certificado na parede. Emoldurado, é
claro.
Precisava copiar e enviar para alguns lugares. Aproveitou para scanneá-lo. E
começou a fazer algumas cópias. De início muito chinfrins, mas depois, uma
beleza. Impressora de excelente qualidade, só diferiam do original por não
serem em papel moeda. Cada uma delas sendo colocada de um lado e as ruins de
outro.
Guardou as cópias necessárias, rasgou aquelas que estavam ruins e pronto.
Decidiu sair para autenticá-las e comprar a moldura. Mas, e o original? Voltou
para casa e procurou no scanner, nada! Entre os documentos, nada! Nas gavetas,
nada! Em lugar algum...
Após quarenta e cinco minutos parado, tentando lembrar onde colocara o tão
querido diploma, ocorreu-lhe uma idéia maluca. Será que foi para o lixo? E lá
na cesta de papel estava o original, picado em dezessete pedacinhos!