O
casamento –
Manoel Carlos Pinheiro
A minha
amante dá o que quero. Mais que isto: revela-me minhas fantasias,
transformando-as em desejos. Desejos realizados viram necessidades básicas,
como o ar que respiro. Ela sacia minha sede e minha fome de amor.
Gravitamos um em torno do outro. Adotamos o mesmo linguajar. Compartilhamos
angústias e sonhos.
Às vezes, pouco a pouco, afasta-se, impacienta-se, esposa ranzinza.
Cão sem dono, rabo entre as pernas, aquieto-me a um canto. Latir pra quê? Ser
enxotado? Melhor calar.
Com o tempo, ela sentirá que, mesmo ao seu lado, estou ausente. E, sedutora,
com poucos gestos, me reconquistará e me tomará, outra vez, para si.
Amiga, companheira e amante, a minha esposa dá o que quero e mais que isto.