Deca – Manoel Carlos Pinheiro
Rotulador. Isto mesmo! Todo mundo tem uma série de
defeitos e eu, é claro, também. Mas um especialmente se destaca. Por mais que
eu tente, não adianta, faz parte de minha natureza. Conheço alguém e logo
estou, com uma única palavra, tentando definir a sua característica dominante.
E, é estranho perceber, as pessoas adotam, inicialmente acrescido ao nome,
depois como apelido até tornar-se nome próprio, assumido por todos: amigos,
parentes e, até mesmo, pela própria "vítima".
A minha irmã Anália é um exemplo de sucesso dos meus rótulos. Ninguém a conhece
pelo nome e ela mesma se apresenta como Deca. Acrônimo que criei para chamá-la
de Distraída, Esquecida e Calmamente Ausente. Desde pequena fez jus à
denominação. Há uma verdadeira antologia de episódios demonstrativos de sua distração.
Ir à aula sem o material escolar; voltar para buscar algo em casa, que
evidentemente esquecera, e sair outra vez sem o que viera buscar; ir se
inscrever em concursos sem os documentos necessários; ir votar sem o título
eleitoral; perceber que saiu sem carteira, na hora de pagar o ônibus; usar uma
meia de cada cor; enfim: o cotidiano de esquecimentos. Tudo, para desespero dos
demais, com a maior calma, como se não estivesse "nem aí".
Tal a fama que ninguém mais consegue se aborrecer com as distrações de Deca. O
que, praticado por outra pessoa, seria motivo de raiva, no caso dela, é motivo
de risos. Esqueceu de botar a carta no correio? Há, ah, há!! Não comprou o
material que pedi? Só você mesmo, Deca! Comida sem sal? Se não fosse o pescoço,
esqueceria a cabeça! É claro que ninguém ousaria entregar-lhe contas para
pagar, no último dia de vencimento. Comprar remédio? É melhor outra pessoa.
Como seria de se esperar, inúmeras vezes perdeu todos os documentos. Sem danos
maiores, pois os encontrava em casa ou tirava segunda via. Mas desta vez foi
diferente. Onde deixou a bolsa com todos os documentos e dois, isto mesmo, dois
talões de cheques completos ninguém imagina. Até que tomou todas as
providências necessárias. Telefonou para o banco cancelando os cheques e
começou a romaria de pedidos de segunda via.
Três dias depois começou tudo. - Anália? Não mora ninguém aqui com este nome.
Espere! Deca telefone! - Sim, sou Anália. Não minha senhora. Não fui eu que
emiti este cheque. Foram extraviados e bloqueados. Não posso pagar nada. - Não
meu senhor, não posso pagar, pois, como já disse, eu bloqueei o talão todo no
banco. - Escute, senhora! Eu não passei este cheque! Já disse que não sei
porque ele foi aceito, pois foi extraviado!
E foi assim por duas semanas. As mesmas explicações, a irritante insistência de
quem recebeu cheques de terceiros. Até que o senhor que telefonara, disse:
- Vai pagar sim, minha senhora.
- Não pagarei, já disse! O cheque foi extraviado!
- Este a senhora pagará!
- Claro que não!
- Mas é do seu interesse!
- Como do meu interesse?!?
- É isto mesmo! Deixe-me explicar, mas a senhora terá que pagar os R$ 732,00.
- Como?!? De jeito nenhum! R$ 732,00?! Nem morta!
- Vai pagar, eu lhe garanto! É do seu interesse.
- Por que do meu interesse?
- Porque nós fizemos uma promoção e o seu cupom, referente ao cheque que a
senhora vai pagar, foi sorteado. A senhora ganhou um carro zerinho!