Arcano
Noite. O silencioso giro da chave fecha o portão. A rua deserta, sem
testemunhas à vista. Ao longe, o som dos batuques e das marchas. O andar
sorrateiro em direção à Lapa. Nada além de um vulto a contrastar com o casario
de Santa Tereza.
Cinqüenta e uma semanas por ano de inflexível disciplina, irrepreensível
dedicação, entrega absoluta. Não no carnaval.
A reedição de outras saídas de outras sextas-feiras que antecederam o tríduo momesco.
Que fantasias usaria? Colombina, palhaço, Clóvis,
bate-bola? Pularia no Cordão do Bola Preta? Sairia no
Bafo da Onça? Dançaria do baile do Clube dos Democráticos? Sambaria na Portela?
Acompanharia os passos de Lopita? Frevaria
com Luiz Freire? Beberia com Madame Satã? Flertaria? Amaria com culpa, mas sem
reservas?
Ao fim da noite de terça-feira, como sempre, retornaria. Qual um filme rodando
ao contrário, giraria a chave do portão e desapareceria no interior do vetusto
casarão.
Na manhã seguinte, iniciada a quaresma, penitente, reassumiria plenamente os
votos de clausura no Convento das Carmelitas.
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O Bloco das Carmelitas sai da Ladeira de Santa Tereza na sexta-feira de
carnaval e dispersa no Largo dos Guimarães. Na terça-feira faz o percurso de
regresso.