Amuo – Manoel Carlos
O frio parecia entrar nos ossos. Choveu a noite toda.
Agora estiou. Logo o sol nascerá. Seria bom não precisar sair do jirau. As
juntas queimam, talvez reumatismo. Tateia silenciosamente no escuro. As
crianças podem acordar depois. Zefa? Melhor que não acordasse mais.
Calçou a alpercata, pegou o matulão, destravou a tramela e saiu. Légua e meia
até o roçado. Sorte ter um jegue que carregue as tralhas. Rapidamente botou a
cangalha e, por cima, os dois caixotes, um de cada lado. Distribuiu bem o peso
para Gigante não ficar penso. Sultão vem junto.
Se pelo menos tivesse uma japona... A névoa que embaça a vista parece atingir o
pensamento. Tudo se mistura e fica meio esmaecido. Raiva de Zefa, aquele troço.
Os meninos tão sabidos, será que vão para cidade quando crescerem? Já tem luz
em Brejinho, chega até aqui? Ainda bem que acabou a estiagem. A terra
esturricada, cheia de pedra não produz. Espiga mirrada, fruta tão pixototinha
que mais parece bisquí. Nem mais cabeça tem, só no terreiro, que nem cabeça é.
O que não morreu na seca foi pra panela. Um dia vai pra São Paulo. Na volta,
rico, com uns cem discos de forró, vai fazer um festão. Sanfoneiro, cantador e
muito arrasta-pé. Cachaça à vontade. Buchada e sarapatel. Todo dia leite,
munguzá, cuscuz e tapioca. E dormir numa cama de lona. Levantar depois do sol.
Pescar e caçar quando bem entender. Besteira, já tá velho demais: trinta e dois
no talo! Podia já ser quase avô se tivesse casado cedo. Com ele tudo é devagar
demais. E Zefa que só faz aperrear! Um dia dá um jeito nisto. Peixeirada não,
por causa dos meninos. Pode ser um veneno, tem tantos por aí. Alguém vai saber?
Nunca! Ela vive dizendo que tá pra morrer.
A fosfuleira tá falhando na hora de fazer o fogo, deve ser a pedra, pois fluído
tem. A lata de flandre esquenta a água do barreiro. Café ralo. É mais
econômico. Até que a danada fez um beiju gostoso. Este cotoco nem parece uma
enxada, vai ser difícil xaxar o feijão. O milho embonecado, se não der bicho...
Fazer as covas da mandioca, pelo menos farinha não vai faltar. Da última vez
que foi à cidade foi muito bom. Comprou até uma chita pra Zefa. Ela bem que
ficou faceira. Coitada, tem sofrido muito. Mas a culpa é de quem? Para escravo,
só falta o tronco, pois o eito já tem. E fome mesmo ninguém passou. Tem dia que
pega tatu, outro caça uma ribaçã perto do barreiro. Depois do toró, foi um
mundo de tanajura. Ainda bem que tinha feito banha. Até umas talagadas os dois
beberam juntos. E depois foi muito gostoso. Mulher fala demais. Parece até
criança. E quer que se responda a tudo. Nem se tivesse estudado.
Pensando bem, não tem motivo de queixa. Já sabe o que fazer de noite. Ela quer
uma pisa. Não de chibata, pois é como diz aquela música: numa mulher não se
bate nem com uma flor. É outro tipo de pisa. Ele sabe dar e ela gosta. Pega ela
de jeito. Num instante acaba o amuo.