A
espera – Manoel Carlos
PInheiro
Para que
tanta pressa?! Ainda são 18h45 e já estou chegando, afinal marcamos às sete
horas. Pronto, cheguei. Com este trânsito louco, nunca se sabe.
Será possível?! O relógio tá parado, faz meia hora que cheguei e ainda faltam
cinco pras sete! Pior que não parou. Devo estar um pouquinho ansioso, sei lá.
É... Acho que ela não vai aparecer... Já está mais de hora atrasada. Agora o
relógio deve ter parado mesmo. Nada disto, no da rua são sete e cinco. É... Com
o trânsito engarrafado, ela não deve ter conseguido chegar na hora, mulher é
fogo!
Também é falta de interesse, se estivesse interessada de verdade, chegaria até
antes das sete.
Olha aquela mulher ali. Tá há um tempão esperando algum idiota. É, idiota, pois
um cara que faz uma mulher destas esperar não vale o que o gato enterra. Rapaz!
Que mulherão! Calipígia que só. Pernas torneadas. Toda proporcional, linda! E
esperando. Além de tudo é séria, nem pros lados olha. Só falta ser sensível,
inteligente e boa de cama. É, porque às vezes é só embalagem, nota dez em
alegoria e zero em enredo.
Já aquele babaca ali é igual a mim, tá todo nervoso, é uma chaminé ambulante.
Ainda bem que não fumo, senão já estaria com úlcera ou enfartado.
Não vem mais! Também por que marcar logo aqui na 1o de Maio? Lugar mais fora de
mão. Eu mereço.
Ah! Não dá pra esperar mais, olha só aquele casal, parece até que vai sair no
tapa. De que adianta um encontro destes? Brigar logo na chegada.
Sete e dez! Que é que tô fazendo aqui, plantado na rua esperando? Tem gente que
chegou depois de mim e já foi embora.
A mulher maravilha não estava esperando um homem não. Parece ser a mãe dela,
logo vi. Não tem cara de ser idiota como eu, fazendo papel de palhaço.
Sete e quinze! Se não vinha, por que não telefonou? Vai dizer depois que meu
telefone deu fora de área. O sinal tá alto, mas vai ser a desculpa. Eu é que
não vou ligar, afinal ela é que se atrasou. Cheguei como sempre, adiantado. Se
eu começar a atrasar quero ver a reclamação. Não gosto de deixar ninguém à toa.
Só se for um motivo, como se diz, de força maior.
O telefone, quem será? Ela certamente não se dará nem ao trabalho, eu mereço!
- Diga! Como?! Sou eu sim!
- Como, onde estou?! Aqui na rua à tua espera, será que só eu lembrei?
- Onde nós combinamos, no largo da 1o Maio, é claro. Afinal, tu vens ou não?
- Como?! 13 de Maio?!! Ih!!!