A
entrevista –
Manoel Carlos Pinheiro
Verificou tudo outra vez e, apesar de inquieto, ficou
satisfeito. Todos os papéis organizados e classificados por ordem de
prioridade. Não tinha certeza de que poderia abordar todos os assuntos. A
reunião mais importante de sua vida. Não precisava dizer a ninguém, mas jamais
fora à capital. E hoje seria recebido pelo próprio governador. Apesar da tensão
e do nervosismo, uma ponta de júbilo.
O terno de linho branco estava impecável. O cabelo bem penteado, com um
pouquinho de gel para não assanhar. A gravata ligeiramente apertada, mas já se
adaptara e conseguia disfarçar o desconforto. Sapatos brilhantes, confortáveis.
Custaram uma fortuna.
Um longo caminho para chegar ali. Origem humilde. Família desestruturada. Pais
analfabetos e dependentes do álcool. Muitos irmãos. Mal alimentados e quase
desabrigados. Surrados por tudo e por nada. Agarrou-se a cada oportunidade como
a uma tábua de salvação.
Ingressou no seminário, única forma de poder estudar. Coitadas das irmãs que se
orgulhavam dos diplomas adquiridos: Olívia corte e costura, Mariana
datilografia, Josefa culinária. E os irmãos, Arimatéia sapateiro, Eutrópio
caminhoneiro, Joaquim mecânico, Augusto marceneiro. Faleceram, ainda pequenos,
Eulina, Sebastião e Paulo. Perdeu o contato e as amarras. Nem sabe onde foram
parar os irmãos. Imagina que os pais tenham morrido.
Era evidente a sua falta de vocação para o sacerdócio. Lamentou perder as
viagens para a Itália. Saiu do seminário e começou a trabalhar no comércio. Do
sertão para o agreste, escriturário de fábrica. Ainda tentou o
curso técnico comercial, impossível. Melhor assim. O dom da oratória o
fez um rábula respeitado. Por acanhamento, jamais usou o anel de advogado.
Neste aspecto, os filhos é que realizaram o seu sonho:
médico, engenheiro e, a caçula, advogada.
Engoliu muito sapo. Manteve a dignidade, mas, lá no fundo, tem dúvidas. Há
momentos em que acha que capitulou. O ingresso na política fora determinado
pelo envolvimento com as questões sociais. Inconformado com a injusta situação
fundiária, a exploração, a miséria, a fome.
Derrotou as oligarquias políticas. Sangue novo, ousadia, determinação. Fez o
sucessor. Foi traído. Voltou a ser prefeito. Mais experiente e pragmático.
Necessárias algumas articulações para a viabilidade do projeto político. Dar os
anéis para manter os dedos. O projeto já desfigurado. Base de sustentação
política ampliada.
Mas continua respeitado pelos seguidores. Graças ao trabalho: sério, constante,
árduo. Honestidade e transparência absolutas no trato da coisa pública. Pouco a
pouco transforma-se em uma legenda.
Por isto foi chamado pelo governador. A sua esperança é tratar de questões
administrativas. Teme a tentativa de cooptação. Considera-se preparado para não
cair no canto da sereia. O governador é uma raposa. E ele duvida de sua própria
habilidade em não aderir sem se indispor. Tentará ações protelatórias. Espera
que o governador não lhe bote a faca no peito.
A reunião mais importante de sua vida. Apenas para si reconhece: não há dois
caminhos. Não é possível a conciliação e o meio termo. O projeto político e o
projeto pessoal estarão em oposição antagônica.