A
decisão – Manoel Carlos
Pinheiro
Como
todos os demais, não jantara. Apenas um lanche com muito suco de frutas. Duas
colheres de mel de abelha na hora agá. Parecia um ritual. Banho em silêncio,
apenas o barulho do forte jato de água fria. Toalha esfregada com força, como
se fosse para ativar a circulação. Trajando apenas o suporte atlético, deita-se
na mesa para a massagem. A panturrilha direita, um pouco dolorida, recebeu uma
atenção especial. O cheiro forte da terepentina substituindo os incensos dos
cultos. Antes de botar o meião e calçar o tênis, enfaixa cuidadosamente o pé e
bota a caneleira. Há quem prefira tornozeleira. Os exercícios de aquecimento
parecem manobras de um exército de autômatos.
O esforço supremo para ouvir a preleção, uma zoada, palavras dispensáveis de
uma ladainha tantas vezes repetida. Apenas a contração nos ovos e a forte
vontade de mijar pela décima vez. Não participa de corrente de oração nem entra
em quadra com o pé direito. Bobagem tem limite.
À saída do vestiário, o barulho das torcidas fica ensurdecedor. Ninguém quer
sentir tremor nas pernas. Danam-se todos a fazer movimentos bruscos e
vigorosos. Saltos, corridas e chutes. Ele não acerta um no gol vazio. É sempre
assim, mas na hora do jogo, não vai uma fora.
Brinca com os companheiros, cumprimenta os adversários. Provoca, ri e saúda a
torcida que grita seu nome. Apesar da proximidade, não consegue e nem tenta
distinguir um rosto na multidão. A torcida é uma coisa só. Não indivíduos. Uma
massa ruidosa e instável. Sabe lidar com ela.
Riva aceita o seu cumprimento, mas não o encara. Isto é bom. Gosta de meter
medo aos adversários. Tonho o abraça. Ótimo, ao menos no início do jogo não
levará pancada. E quando o jogo esquentar, Arnóbio expulsa por qualquer coisa e
isto é muito bom. Dois dribles mais atrevidos e mandará um para o chuveiro. É
só não se deixar atingir em cheio.
Observa Riva, mas sem deixar que ele veja. Dá para perceber que o craque
adversário está um pouco cabisbaixo. Vai tirar proveito disto. Em um lance
decidirá o jogo. Se jogasse metade do que Riva joga... Só não é completo porque
é instável. Rápido que nem um raio. Bate forte com as duas. Dribla em
velocidade e parado. É forte e resistente. Enfim: alia força e técnica como
ninguém.
Um refletor mais forte está quase na direção do gol em que Hélio ficará no
primeiro tempo. Vai até lá. Discretamente, fica da altura do goleiro adversário
de frente para o refletor e já sabe que, puxando um contra-ataque pela
esquerda, por cobertura mandará uma bola que Hélio não enxergará.
Nem precisava, mas lembrou a Danilo: nada de espaço para Getúlio, oportunista
de primeira. Com Tião se comunica por telepatia, apenas riem um para o outro,
leve soco no peito como quem diz: só depende de nós dois. Rafael vem dizer que
ele fique em cima de Riva e ele devolve: - Nem precisa falar nada, vou dar um
nó e você vai fechar o gol!
O barulho aumenta. A histeria toma conta das torcidas. Maquinalmente dirige-se
ao meio da quadra, escolhe o campo e Riva a saída. Arnóbio exige respeito e
jogo limpo. A vontade de mijar, os lábios secos, o frio nos ovos. Soa o apito!
Tão logo soou o apito, o mundo pareceu mover-se em câmera lenta. O barulho da
multidão mais parece um sussurro. Getúlio, Riva, Genaro e a bomba: ele estica a
perna, a bola queima sua coxa e sai pela lateral. A torcida suspira aliviada.
Na cobrança antecipa-se a Riva, não passa de primeira, prende e rodopia, finge
atrasar para Rafael e lança Tião nas costas de Tonho, chute cruzado, Hélio
salva.
É lá e cá. Riva dribla Tião, a torcida adversária vibra, drible longo em Zeca e
ele faz barreira, não tenta tomar a bola, inútil. Apenas protege. Riva puxa
para dentro, ele passa e volta a perna esquerda protegendo. Riva puxa para
fora, protege com a direita e desvia para córner. Não pode deixar Riva gostar
do jogo, senão ele vira o cão chupando manga.
Salva quase em cima da linha. Olha para frente e Tião dispara, se lançar é gol
certo. Finge não ver que Riva vem para o bloqueio, arma o chute e apenas toca,
de leve, a bola para o lado, precisão milimétrica, por entre as pernas de Riva
que cai. A torcida, coração na mão, vai à loucura. Ele sabe que não abriu o
marcador, mas acabou Riva, mais de meio time adversário.
Riva sempre lançado. Olhar suplicante pedindo que ele lhe roube logo a bola e
acabe a agonia. De galinha de casa não se corre atrás. Jamais dá o bote, pois
Riva é ágil demais. Acabado no jogo, Riva limita-se a tocar para o lado ou
adiantar e perder a bola. No máximo um chutão para fora. A cada tentativa
frustrada Riva piora. Não pode ter pena: é um ou outro.
Aproveitando um lançamento seu, Tião fez o segundo. O primeiro fora dele, na
puxada do contra-ataque, pela esquerda, por cobertura, no ninho da coruja.
Quando Hélio deu por si, a nega tava lá dentro. Polêmica da semana: se foi
frango ou não; se foi no contrapé; se a bola veio de curva. Nem Hélio tinha
certeza de que fora o refletor mais forte. Certamente acharia que perdeu o
tempo da bola; que estava encoberto; que não dava para alcançar, pois marcava o
lançamento. Quem imaginaria um chute do meio da quadra, logo contra Hélio?
O segundo tempo foi um passeio. Tonho desclassificado e Augusto, seu
substituto, o único a adivinhar as suas jogadas. Ainda bem que é reserva e já
entrou num time derrotado, querendo apenas perder de pouco.
Tabela com Tião e deixa Joca na cara do gol: é o terceiro. Na cobrança da
falta, a pretexto de beijar a bola, pegou-a longe de si e botou-a aos seus pés,
tirando a barreira da frente do canto esquerdo. Chute de curva, colocado, ainda
tocou na trave antes de entrar. Fechando a goleada, jogada de alta velocidade e
precisão técnica: puxou o contra-ataque, driblou três e, com um toque de
direita, encobriu Hélio que saía desesperado. Horácio, vozeirão inconfundível,
passou o resto do jogo gritando: - Sai todo mundo e paga outro ingresso pelo
quinto gol! Este menino é de ouro!
Duzentos quilos em cada perna. Parece suar até pelos cabelos. Mesmo assim, pede
para ficar até o final. Carlito, o técnico, respeita o seu pedido e o mantém.
Limita-se a tocar a bola para os companheiros. Os adversários, não levam em
conta os gritos de Argeu e procuram distância dele. Se tropeçar na bola será
aplaudido. A torcida só sabe gritar o seu nome. Ainda mandou duas na trave e
quase derrubava o ginásio.
O canto da torcida ecoa. Arnóbio ergue o braço e encerra a partida. Os
companheiros se antecipam aos torcedores e o erguem. Passa de mão em mão, de
ombro em ombro. Volta ao chão, é abraçado. Derrubado. Reerguido.
É campeão! É campeão! Perdeu os sapatos, não importa. É campeão! É campeão!
Perdeu as meias, não importa. É campeão! É campeão! Perdeu a camisa, não
importa. O seu coração de torcedor foi mais forte que os nervos do menino
campeão. E era tudo que não queria: chorou copiosamente.