A
briga – Manoel Carlos
Pinheiro
Sigilosa,
quase clandestina. Recebi o aviso um dia antes. Não podia contar para ninguém.
Pouco a pouco fomos nos encontrando. Era uma quinta-feira. Logo ao cair da
tarde, a ansiedade tomou conta de mim. Eu tinha 15 anos e estava de férias.
Desde o lendário Pé-de-Ferro que não havia surgido algo tão especial. E agora
se enfrentariam.
Em rodas de discussão, os ânimos se exaltavam sempre que alguém dizia qual o
melhor. Uma vez houve peixeirada. Não era para menos, chamar Caiado de mestiço,
foi demais. - Só tem força, não agüenta dois barrufos apanhando. Foi um
deus-nos-acuda. Não houve turma do deixa-disso. Tudo muito rápido. A 14
polegadas rasgou o bucho do falastrão. Sangue pra todo lado. Sobreviveu. Um mês
depois voltou a freqüentar a rinha. O ex-amigo fugiu pra São Paulo.
A outra peixeirada foi por motivo ético. Perdeu a briga e maltratou sua própria
criação. A culpa é sempre de quem emparelha. Emparelhou mal ou não preparou
direito o seu galo. Um galista mais zeloso não resistiu ao ver o capãozeiro dar
um safanão no galo caído. Depois do grito de advertência, partiu pra cima e
sangrou quem não deveria meter-se em coisa de homem. Não teve escapatória. Na
hora, ninguém lamentou. Quem já viu maltratar um galo?!
Caiado e Tesourão. Sabia que assistiria a um confronto histórico. Contaria para
os meus netos. Quase todos os presentes já eram avós. Ninguém falava. O clima
festivo de brincadeiras e de apostas não existia naquela noite. As apostas foram
proibidas. Havia muito mais que dinheiro em jogo.
Talvez eu fosse o único a freqüentar os dois terreiros. Conhecia de perto a
ambos. Não conseguia torcer por qualquer dos lados. Dois monstros sagrados.
Mais de seis quilos cada um. De puro músculo.
Caiado batia forte demais. Quantos pescoços já quebrara? As estatísticas não
eram confiáveis. Bico na crista ou na barbela, puxão pra baixo, subida
fulminante: só se ouvia o estrondo. O sangue respingava, não havia pescoço à
prova de tal pancada. Se o adversário brigasse na solta, mantendo distância,
durava um pouco mais. Se fizesse briga, até dava pra endurecer, senão, era só
apostar se passaria do primeiro barrufo.
Tesourão fazia briga e era rei da rebatida. Seu filho Sapinho matou três numa
manhã. Vinte três minutos o primeiro, dezenove minutos o segundo e quinze
minutos o terceiro. Mas não chegava aos pés do pai. O único capaz de derrotar
Caiado, todos sabiam.
Seria a luta entre a técnica e raça de Tesourão contra a força e rapidez de
Caiado. Ainda bem que, para evitar brigas, as apostas estavam proibidas.
Ninguém sabia o que aconteceria. Tesourão conseguiria evitar a queda? Caiado
conseguiria brigar os dez barrufos?
No caminho, tremia. Um pouco de frio, um pouco de nervosismo. Lá dentro, até
calor fazia. Os olhos pulando das órbitas eram visíveis até sob a cortina de
fumaça de cigarros. Os nervos pareciam a corda do berimbau de bacia. Recinto
totalmente fechado, cheiro desagradável: mistura dos odores dos garajaus,
cigarro e suor.
Além de selecionadíssimo, o grupo foi advertido para manter o evento em segredo
e não levar arma ao local. Ou, no caso de ir armado, entregá-la ao dono da casa
logo à chegada. Todos concordaram e seguiram as normas estabelecidas. Zé Fraga,
claro, foi o árbitro. Nem precisava tanto.
Começou o confronto. Silêncio absoluto. A partir daquele momento, ninguém mais
fumou. Talvez para não fazer barulho ao riscar o fósforo ou ao aspirar o
cigarro. Olhos vidrados, respiração contida, faces empalidecidas e contraídas.
Mesma altura, mesmo peso. Plumagem diferente. Tesourão, vermelho acastanhado
misturado com algumas penas pretas. Caiado, uma mistura de tons de amarelo
salpicado no preto.
Mais parecia um balé. Giravam, pescoço com pescoço. Ameaçavam o golpe, chegando
mesmo a suspender um pouco as asas, mas no meio da ação, parecendo prever um
contragolpe, desistiam. Fossem humanos, poderíamos dizer que os dois primeiros
barrufos foram de estudos.
A partir do terceiro, Tesourão começou a levar alguma vantagem. Fazia a briga
como nenhum. Giros rápidos para ambos os lados. Beliscões disparados como jabs.
Duas vezes, como se fosse uma rebatida, aproveitou o puxão na barbela iniciado
por Caiado e bateu muito forte. Lábios mordidos denunciaram os gritos mudos.
A partir do quinto barrufo, briga franca. Inimaginável a resistência de ambos.
Ninguém jamais vira golpes tão duros não resultarem em quedas. Um torrão ficou
entre os dedos de Caiado na hora de um golpe, voou sobre a cabeça de Giva e
espatifou-se, ruidosamente, na parede a uns três metros de distância.
No sétimo barrufo, parecia que a coisa se decidiria em favor de Caiado. Começou
a soltar-se mais. Bateu três vezes seguidas, o sangue espirrou, a vida de
Tesourão estava por um fio, mas ele não demonstrava o abatimento.
No oitavo, a surpresa. Tesourão bateu tão forte que Caiado bambeou, deu dois
passos trôpegos para um lado, outro para frente, o pescoço apoiado no de
Tesourão impediu a queda. Tesourão nem precisaria bater, apenas afastar-se ou
beliscar. Entretanto, pareceu sentir o golpe tanto quanto Caiado, buscara
forças e energias onde já não havia. Faltavam ainda trinta segundos para o
final do barrufo e nenhum conseguiu mais dar qualquer golpe.
Os dois últimos barrufos duraram um século. O desespero estampou-se em todos os
rostos. Golpes secos e alternados evocavam os sons de tambores mágicos, de
pisadas fortes do samba-de=coco em dia de mutirão, da zabumba de Norato. Se
alguém tivesse ousado propor, a luta terminaria. Só havia motivos para ter
vencedores. O empate foi a consagração de ambos.
Entre os humanos, apenas os passadores se movimentavam. Mesmo ao final da luta,
demorou um pouco a alguém fazer um movimento, provavelmente um suspiro. Em
silêncio o grupo começou a dispersar-se. Éramos, no máximo, trinta pessoas.
Parecíamos sonâmbulos ou autômatos. Já longe dali, uma meia hora depois,
consegui falar. - Está frio, vou pra casa. - Eu também, disseram os demais.
Uma semana depois, a notícia começou a se espalhar. As pessoas vinham me
perguntar, pedir detalhes. Eu emudecia. Parece que todos os presentes agiam
assim. Não sei porque. Só sei que, ao lembrar do confronto, voltava a sensação
esquisita dos últimos dois barrufos. Pela primeira vez, eu vira os limites de
uma criatura serem completamente ultrapassados.