De mazombo a brasileiro – Manoel Carlos Pinheiro
Ai dos vencidos! Vilões, déspotas, facínoras... É assim que a História os
conhece. Afinal, o registro histórico não é feito por todas as partes
envolvidas nos conflitos. A verdade oficial reflete a visão dos vencedores que
reservam para si o papel de heróis.
Contrariando esta norma, em Pernambuco encontram-se no panteão de heróis
vencedores e vencidos na História do Brasil Holandês; desde a invasão à
restauração, passando pela Batalha de Guararapes, marco constitutivo da
nacionalidade brasileira.
O Brasil Colonial
Europa Renascentista, Reforma Protestante, Sistema de Manufatura, Revolução
Comercial, Mercantilismo, Absolutismo, Racionalismo, Revolta de Camponeses,
Concílio de Trento, Massacre de São Bartolomeu, Barroco... são
fatos ocorridos nos séculos XVI e XVII que marcaram a História da Civilização
Ocidental e que, de uma certa forma, ajudam a entender o contexto das invasões
holandesas no Brasil Colônia.
Sendo uma colônia de exploração, o Brasil servia apenas como fonte de
matérias-primas para Portugal. Todo o comércio era feito através da matriz.
Entretanto, havia uma exceção: Portugal permitia que os holandeses
comercializassem diretamente produtos do Brasil, notadamente o açúcar, apenas
pagando os respectivos impostos à Coroa Portuguesa.
No final do Século XVI, Portugal apresentava sinais de decadência, a Espanha
mantinha o seu poderio, mas já havia grandes forças ascendentes: Holanda,
França e Inglaterra. O mapa da Europa se redesenhava constantemente. A Holanda
ficara independente da Espanha quando esta, em 1580, passou, a partir da
constituição da União Ibérica, a deter também a Coroa Portuguesa. Mantendo o
controle sobre o comércio e em confronto com os holandeses, os espanhóis
proibiram o comércio holandês partindo do Brasil. A proibição espanhola
contrariou inúmeros interesses. Tendo elevados investimentos no Brasil, os
neerlandeses decidiram promover a ocupação territorial.
A doce riqueza
Após o declínio dos ciclos econômicos do Pau-Brasil e do Couro, o açúcar
tornou-se a principal riqueza colonial. De origem asiática, a cana-de-açúcar
chegou ao Brasil a partir da Ilha da Madeira, onde o seu cultivo atingira um
nível de produtividade elevadíssimo. Em território nacional, além da técnica do
plantio, foi implantado um sistema de moagem avançadíssimo com a introdução de
engenhos de três eixos, derivados do invento do madeirense Diogo de Teive, patenteado em 1452, melhorado com a introdução de
cilindros na moagem e aperfeiçoado no Brasil por madeirenses para cá trazidos por Duarte Coelho, donatário da Capitania de
Pernambuco. A produção açucareira, graças às condições climáticas e à
tecnologia empregada, propiciou à Capitania de Pernambuco o desenvolvimento que
a transformou no principal pólo econômico da Colônia.
Sendo um produto de exportação, a comercialização do açúcar era fundamental
para o sucesso do empreendimento. Portugal e Holanda se associaram. Os florins financiaram o sistema empresarial e os holandeses
eram responsáveis pela comercialização. Além disto, a refinação era feita na
própria Holanda onde, ao final do século XVI, só em Amsterdã havia 26
refinarias.
Batavos, flamengos, mazombos e cristãos-novos
O negócio envolvia a vinda de negros africanos que eram submetidos à mais rapace forma de exploração: a escravidão.
Internacionalmente, responsabilidade dos batavos, flamengos, no Brasil, o
negócio era da responsabilidade de portugueses, madeirenses e mazombos, assim chamados os que nasciam no Brasil.
Inicialmente era uma designação pejorativa e restrita aos filhos de
portugueses, depois passou a ser o gentílico, embora desprovido do sentimento
de pátria. No Brasil e fora dele, o negócio envolvia cristãos-novos,
assim chamados os judeus convertidos.
A primeira invasão holandesa foi à capital da Colônia, Bahia, em 1624 e durou
cerca de um ano. A forte armada espanhola veio libertar a capital
reintegrando-a ao território colonial.
A invasão
O Almirante Hendrick Corneliszoon
Lonck comandou os 7.280 homens que em 14 de fevereiro
de 1630, em 65 embarcações aportaram em Pernambuco. O General Theodoro Weerdenburch desembarcou as tropas terrestres em Pau
Amarelo e no comando de 3.000 homens marchou sobre Olinda.
A resistência foi inicialmente comandada por Matias de Albuquerque e nela se
destacaram: Antônio Lima, Antônio Dias Cardoso, Felipe Camarão, Luís Barbalho
Bezerra, Henrique Dias, João Fernandes Vieira, André Vidal de Negreiros,
Antônio Cavalcanti, Antônio da Silva, Manuel de Miranda...
Em 1637 chegou a Pernambuco João Maurício, o Conde de Nassau-Liegen,
sobrinho-neto de Guilherme o Taciturno. Nassau trouxe o latinista e poeta Franciscus Plante, o médico e naturalista Willem Piso, o astrônomo e naturalista George Marcgrave, os pintores Frans Post e Albert Eckhout, o médico Willen van Milaenen,
o humanista Elias Herckmans, chegaram posteriormente
o cartógrafo Cornelis Sebastianszoon
Golijath e o arquiteto Pieter
Post, sendo incorporados à missão científica os
artistas amadores Zacharias Wagener e Gaspar Schmalkalden aqui residentes. Construiu palácios e pontes,
criou o horto zoobotânico, promoveu o desenvolvimento
das ciências e das artes, perdoou dívidas e convocou a Assembléia Geral reunida
entre 27 de agosto e 4 de setembro de 1640 contando com a participação de 56
portugueses e mazombos. Além de grande empreendedor,
Nassau era experiente comandante militar e consolidou as conquistas
neerlandesas. A separação de Portugal da Espanha, ocorrida em 1640, criou as
condições para um acordo entre portugueses e holandeses. O retorno de Nassau à
Holanda em maio de 1644 aumentou a insatisfação dos nativos propiciando a
Insurreição Pernambucana.
A Insurreição Pernambucana
Sob o título de Compromisso Imortal, datado de 23 de maio de 1645, foi
produzido o primeiro documento nativista brasileiro a expressar claramente a
idéia de Pátria. Assinado por “18 líderes patriotas” o documento dizia: “Nós,
abaixo assinados, nos conjuramos e prometemos em serviço da liberdade, não
faltar a todo o tempo que for necessário, com toda ajuda de fazendas e de pessoas,
contra qualquer inimigo, em restauração da nossa Pátria; para o que nos
obrigamos a manter todo o segredo que nisto convém; sob pena de quem o
contrário fizer será tido como rebelde e traidor e ficará sujeito ao que as
leis em tal caso permitam”.
Apesar da oposição do próprio Governo Português, os pernambucanos resolveram
continuar a luta pela liberdade da pátria. D. João IV, aconselhado pelo Padre
Antônio Vieira, assinou um acordo com a Holanda, pagando-lhe 300.000 cruzados e
cedendo Pernambuco e demais domínios holandeses no Brasil. Este documento foi
assinado em 14 de março de 1646 e considerava traidor todo aquele que
continuasse a luta de resistência.
Em resposta, Henrique Dias declarou: “Faltamos à obediência que nos ocupava no
Sertão da Bahia, por não faltarmos às obrigações da Pátria, respeitando
primeiro as leis da natureza, que as leis do império”.
A Batalha de Guararapes
Quando os holandeses descumpriram o acordo com Portugal e invadiram o Maranhão
e Sergipe, a Coroa Portuguesa passou a apoiar os insurretos. Foram dez anos de
lutas durante os quais o sentimento patriótico se consolidou. Tabocas, Casa
Forte foram vitórias decisivas. Quando estavam prestes a capitular os
holandeses receberam o reforço de homens e armas. Em superioridade numérica
partiram para o Cabo de Santo Agostinho, mas foram derrotados na primeira
Batalha de Guararapes em 19 de abril de 1648. Em 1654 deu-se a Restauração
Pernambucana.
Do ponto de vista militar, a Insurreição Pernambucana representou uma inovação
ao instituir a guerra de movimento contra a guerra de posição. A chamada Guerra
Brasílica utilizava métodos e táticas de guerrilha, empregadas por um exército
formado por terços de mazombos e reinóis,
índios brasilianos, negros de nação, crioulos e mulatos. A primeira Batalha de
Guararapes opôs as tropas batavas com 5.000 homens e 5 peças de artilharia,
mosquetes, arcabuzes, pistolas, alabardas
e piques ao exército brasileiro com 2.000 homens sem qualquer peça de
artilharia, armados apenas de mosquetes, bestas, piques, rapieiras,
catanas e terçados. Os trajes sumários das tropas
pernambucanas permitiam-lhes maior mobilidade, daí o apelido de ceroulas dado
aos soldados. No máximo um gibão de couro protegia os mais graduados.
O significado militar pode ser resumido na declaração de Artyoski:
“Há mais de quarenta anos que milito na Polônia, na Alemanha, e Flandres,
ocupando sempre postos honrosos, e só veio abater-me o orgulho, e desonrar-me
um índio brasiliano chamado Camarão”.
Brasilidade
Ao se retirarem do Brasil, os holandeses levaram para as Antilhas a tecnologia
da produção do açúcar e começaram a concorrer em vantagem com o Brasil.
Iniciou-se então o declínio econômico de Pernambuco e da própria Colônia, sendo
que o Ciclo do Ouro no século XVIII devolveria ao Brasil a importância
econômica perdida.
A riqueza maior, sem quantificação econômica, foi o processo de surgimento da
brasilidade.
Quando aqui chegaram, os holandeses encontraram mazombos,
meros reinóis.
Durante todo o processo da Insurreição Pernambucana o nativismo aflorou e a
palavra Pátria foi usada em referência ao Brasil. Os nossos combatentes eram
das três etnias que formariam a nação brasileira, mas não apenas os soldados e
sim os seus comandantes.
Pela primeira vez o termo brasileiro foi usado como gentílico. Foi num relato
da primeira Batalha de Guararapes, atribuído a Diogo Lopes Santiago que
afirmou: “as tropas brasileiras derrotaram as tropas flamengas”.
Quando se retiraram de Pernambuco, os holandeses deixaram brasileiros.